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29 de janeiro de 2014

Bactéria da Peste Negra resiste nos roedores atuais e pode causar nova pandemia.

Dois dos mais devastadores surtos de praga da História, que mataram mais da metade da população da Europa, foram causados por tipos diferentes de um mesmo agente infeccioso, revelou um estudo recente publicado na revista “The Lancet Infectious Diseases”. A Praga de Justiniano, no século VI, que é creditada como a responsável pelo desaparecimento do Império Romano, e a Peste Negra do século XIV, foram causadas ​​pelo surgimento independente de uma bactéria em seus hospedeiros naturais, o rato preto.

Uma análise de DNA bacteriano extraído dos dentes de duas vítimas da peste, que morreram no início do século VI, na atual Baviera, na Alemanha, mostrou que eles estavam infectados com a bactéria Yersinia pestis, o mesmo agente da praga conhecida por ter provocado a Peste Negra 800 anos mais tarde. Uma análise ainda mais detalhada revelou que os dois surtos foram independentes um do outro: cada pandemia foi causada por um tipo diferente de Yersinia, indicando que a bactéria surgiu nos ratos em ocasiões distintas, segundo os pesquisadores.

Embora o tipo de bactéria por trás da Praga de Justiniano tenha morrido, o tipo que causou a Peste Negra provavelmente ressurgiu alguns séculos depois e causou uma terceira pandemia, em meados do século XIX na China, matando 12 milhões de pessoas só na China e na Índia, mas não chegou à Europa.

Os cientistas por trás deste estudo alertaram que a descoberta sugere que há possibilidade de que uma outra pandemia surja a partir do reservatório da bactéria Yersinia existente na atual população de roedores.

— O ponto chave aqui é que esta bactéria pode ressurgir em novas formas, em humanos, com enorme impacto. Isso já aconteceu três vezes no passado e devemos monitorar a questão para o futuro — disse Hendrik Poinar, diretor do Centro de DNA Antigo na Universidade McMaster em Ontário, no Canadá.

A Praga de Justiniano, que tem o nome do imperador romano que morreu vítima da doença, provavelmente começou na Ásia, mas ganhou proeminência quando varreu Constantinopla. A doença matou pelo menos 50 milhões de pessoas, metade da população mundial na época, e geralmente é lembrada como o primeiro surto documentado da Peste Bubônica.

A análise completa do genoma da bactéria, extraída de dois esqueletos que morreram vítimas da praga, tem mostrado que a pandemia foi extinta completamente em um par de séculos, sem deixar descendentes bacterianas, disse o Dr. Poinar.

— A pesquisa é fascinante, desconcertante e gera novas questões que precisam ser exploradas, como por exemplo, por que esta pandemia, que matou algo entre 50 e 100 milhões de pessoas, desapareceu? — questionou o pesquisador.

Os cientistas extraíram uma sobreposição de fragmentos de DNA Yersinia dos dentes das duas vítimas da peste e foram capazes de construir todo o genoma de 4,6 milhões de “pares de bases”, letras individuais do alfabeto genético que compõem o código genético da bactéria.

— Sabemos que a bactéria Y. pestis migrou de ratos para humanos através da História e que os reservatórios da praga ainda existem em roedores hoje, em muitas partes do mundo — disse o principal autor do estudo, Dave Wagner, da Universidade do Norte do Arizona em Flagstaff, no Arizona, EUA.

— Se a Praga de Justiniano pode surgir na população humana, causar uma pandemia e desaparecer, isto sugere que pode acontecer novamente. Felizmente, hoje temos antibióticos que poderiam ser usados para tratar a praga efetivamente, diminuindo os riscos de uma pandemia em larga escala — explicou Wagner.

Longos períodos de temperatura quente e úmida precederam tanto a Praga de Justiniano quanto a Peste Negra, que, acredita-se, foi causada pelo enorme aumento na população de ratos. Os cientistas suspeitam que o surto de praga desapareça à medida que as pessoas desenvolvem imunidade natural à bactéria.

— Outra possibilidade é que as mudanças no clima tornem o ambiente menos propício para a sobrevivência da bactéria na natureza — acredita Wagner.
 
Fonte: O Globo