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25 de março de 2014

TRISTEZA E REVOLTA DE QUEM RECEBE O BOLSA FAMÍLIA.

Como cidadão e cristão, imbuído da missão de caminhar com o povo de Deus, neste longínquo sertão paraibano, sinto-me na missão profética de defender, incondicionalmente, meus irmãos sofridos que, pelo fato de fazerem parte do programa social do governo federal, o bolsa família, são vítimas dos piores adjetivos  e  ataques injustos, desumanos e preconceituosos.

Toda semana visito as famílias da cidade e da zona rural.
Ouço, com o coração de pastor, seus apelos, seus clamores. Elas falam de sua vida, suas dificuldades, seus aperreios, mas também de esperança, de sonhos...

Nas conversas com os sertanejos, percebo que os mesmos estão revoltados, tristes, com os ataques verbais que lhes são direcionados. São adjetivos agressivos, grosseiros, que ferem a alma do homem da mulher sertaneja. Tudo por causa do programa federal supracitado.

Vou consignar tudo o que tenho ouvido das famílias inscritas no programa do bolsa família. São palavras sérias, carregadas de verdade, emoção, indignação e tristeza.

-Padre Djacy, tem gente que diz que a gente que recebe o bolsa família e vagabundo. Isso é uma mentira, a gente fica revoltada com isso.

-A gente não é vagabundo nem malandra, a gente é honesto, trabalhador.

-O povo pensa que nós vivemos de malandragem por causa dessa bolsa família. Esse povo não sabe o que é sofrimento, nunca vem ver de perto nossa situação.

-O bolsa família, seu padre, é a nossa sorte. Se não fosse esse dinheiro, a gente já estaria era morto.

-Vou lhe dizer uma verdade, Padre, se não fosse o bolsa família, o povo já teria saqueado mercados, escolas, creches, feiras e tudo mais. Graças a Deus, com esse dinheiro do bolsa família, não foi preciso.

-Pode ser pouco, como  de fato é, mais ajuda demais  a gente. Graças a Deus.

-Eu agradeço a Deus e a quem enviou para nós esse programa chamado bolsa família. É a nossa sorte. Graças a Deus.

-É triste para o homem trabalhador e sério do sertão, ser chamado de vagabundo, preguiçoso por receber o bolsa família. É muito triste mesmo.

-Tem gente que nos chama de vagabundo, preguiçoso, porque recebemos o bolsa família, mas ninguém que nos chama assim tem coragem de nos ajudar.

-Anote aí, seu Padre: nós do sertão estamos sendo humilhados e maltratados quando chamam a gente disso e daquilo. A gente trabalha, batalha para manter a família.

-Quem chama a gente de preguiçoso e vagabundo é porque nunca sofreu, nunca  passou fome, nunca passou necessidade. É gente que vive nadando em dinheiro, em comida, em luxo.

-Na seca de 2012, uma grande seca, a nossa felicidade foi o bolsa família. Se não fosse a gente não estaria nem viva pra contar a história.

-Esse povo importante, rico, sei lá o que for, nunca veio a nossa casa para ver o nosso sofrimento, as nossas necessidades. Esse povo que mete o pau na gente, não ajuda em nada, nunca vem, sequer, com uma feirinha.

-Só quem é pobre, passa necessidade, sabe a importância do bolsa família.

-Chamar os trabalhadores da roça de vagabundo é uma vergonha, uma tristeza. Eu me sinto humilhado, injustiçado. Eu fico muito triste com isso.

-Eles dizem que o bolsa família é bolsa vadiagem, bolsa malandragem. Isso é uma mentira. O dinheiro que a gente recebe é para nossos filhos. A gente não aceita essas mentiras deslavadas.

-Tem gente que chama quem recebe o dinheiro de bolsa família de preguiçoso, mas quando é tempo de eleição, vem bater na nossa porta atrás de nosso voto.

-Quem vive de bucho cheio não sabe o que sofrimento e não pensa nos pobres. Por isso vive dizendo que a gente que recebe o dinheiro do bolsa família é isso ,é aquilo. Essa gente não tem coração, essa gente só pensa nela mesma.

-Quando não tinha bolsa família, em tempo de seca, morria muito gente de fome. Neste ano de 2012, não morreu ninguém por conta do bolsa família. Este ano foi diferente dos outros anos.

-Quem chama a gente de viciado em dinheiro do bolsa família, não ajuda em nada. Na seca, não apareceu ninguém com uma feira. Agora criticar, sabe.

-Na seca de 2012, a nossa sorte foi esse dinheiro do bolsa família. A nossa sorte. Ninguém morreu de fome não.

-Olha Padre, a gente recebe o bolsa família e nossos filhos estão na escola. Nenhum perde aula. Graças a Deus.

-Muitos chamam a gente de vadio, preguiçoso, sei lá mais, mas não ajuda em nada. Gasta um dinheirão danado com o cachorro de estimação, mas não é capaz de ajudar uma criança pobre.

Como sertanejo e pastor, não admito que meus irmãos sertanejos, fortes, valentes, determinados, guerreiros, sejam tratados maldosamente, com os piores adjetivos, pelo fato de ser beneficiados pelo o bolsa família. Tratemo-los com muita dignidade.


Fonte:

Pedra Branca-PB, em 17 de março de 2014.
Padre Djacy Brasileiro.
E-mail: padredjacy@hotmail.com
Twitter: @PadreDjacy