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11 de abril de 2014

De novo, a “mulher de Jesus”.

Bem, parece que o pequeno fragmento de papiro conhecido como “Evangelho da Mulher de Jesus” é autêntico, afinal de contas. O texto é o único no qual Cristo é retratado pronunciando as palavras “minha mulher”, em diálogos na língua copta (idioma egípcio, descendente da língua falada pelos faraós). Veja uma representação do fragmento (do tamanho de um cartão de crédito!) no infográfico abaixo.

A afirmação de autenticidade vem de um comunicado da Escola de Teologia de Harvard, onde trabalha a pesquisadora americana Karen King, responsável pela análise inicial do documento. Os dados que corroboram a autenticidade do papiro foram a datação do material pelo método do carbono-14 (que mede a antiguidade da matéria orgânica no papiro, ou em qualquer outro objeto) e a análise das moléculas de tinta nele, compatíveis com tintas antigas feitas à base de carvão. Cientistas de diversas instituições se uniram para fazer a análise.

Veredicto, segundo Harvard: a cópia analisada por King dataria de algum momento entre os séculos 6 e 9. Isso é só uma data mínima, veja bem — o texto em si pode ter sido escrito muito antes, ou perto da época da produção do papiro, é difícil dizer.



Já escrevi algumas vezes sobre o papiro (aqui e aqui, por exemplo) e, claro, sobre toda a polêmica envolvendo o suposto relacionamento amoroso entre Jesus e Maria Madalena (veja aqui). Abaixo, algumas notas rápidas sobre a nova análise, e sobre o que ela pode significar (ou não, como diria Caetano):

1)Muitos especialistas em cristianismo antigo continuam vendo com um bocado de desconfiança o texto, mesmo após os testes. A caligrafia é bizarra, há erros de gramática esquisitos no texto, as palavras cruciais (“minha mulher”) parecem ter sido escritas em negrito, entre outras coisas. Em tese, um forjador poderia ter pegado um papiro antigo e usado uma tinta produzida segundo métodos antigos pra chegar ao texto do fragmento.

2)Ainda que o texto seja autêntico, é muito difícil dizer do que exatamente Jesus estaria falando — ou seja, qual seria a teologia por trás da ideia de casamento dele por parte do autor do texto — sem ter o contexto mais amplo da narrativa, ou diálogo, ou sei lá o que seja essa obra. Ideias que, do ponto de vista de um cristão médio de hoje, seriam esquisitas ou mesmo absurdas circulavam pra todo lado nos primeiros séculos do cristianismo. A maioria delas, porém, não via com bons olhos a sexualidade e o casamento (se você acha que o cristianismo “tradicional” tem uma visão negativa sobre essas coisas, é porque não viu o radicalismo ascético de alguns desses textos antigos “heréticos”).

3)Sempre é bom lembrar o seguinte, talvez o mais importante: esse tipo de texto não nos diz rigorosamente NADA sobre o estado civil do personagem histórico Jesus de Nazaré. Tudo indica que se trata de uma obra tardia, produzida por cristãos cujo interesse era retratar Jesus como base de suas especulações teológicas e místicas, e não contar algo de histórico sobre sua vida terrena. (É claro que a preocupação teológica, e não histórica, também é predominante nos Evangelhos da Bíblia, mas o consenso entre os especialistas é que eles foram escritos ainda no século 1º d.C., algumas décadas, e não séculos, depois da morte de Jesus).

Resumo da ópera: no máximo, o papiro pode trazer dados interessantes pra compreender algumas correntes de pensamento do cristianismo primitivo. É legal, mas muito menos bombástico do que uma suposta “certidão de casamento” de Jesus.

Fonte: Folha de São Paulo